A CALATONIA COMO RELACIONAMENTO
Paulo Machado
Um importante e significativo aspecto subjacente ao método calatônico é o relacionamento que se estabelece entre o terapeuta e o paciente.
Como em todo processo terapêutico, a relação que ocorre entre ambas as partes possui duas dimensões, uma consciente e outra inconsciente. Juntamente com a percepção objetiva que tem do paciente, o terapeuta traz consigo uma imagem interior que corresponde à sua própria experiência interna como paciente e que é projetada no paciente, e ocorrendo ainda, reciprocamente, por parte do paciente, a "projeção" na pessoa do terapeuta, de sua configuração interna de "curador". Esta configuração, embora inconsciente, certamente é decisiva na orientação de seu processo, o que provavelmente começou a ocorrer inclusive no momento de escolher a pessoa que lhe auxilia (o terapeuta).
No processo da Calatonia, observa-se ainda a vinculação corporal do terapeuta ao paciente durante todo o período de aplicação dos toques, período este em que um amplo envolvimento bi-pessoal se estabelece, produzindo um conjunto peculiar de ressonâncias psico-físicas, com a evocação de sensações e sentimentos e com o "constelar" de imagens internas.
Devido à multidimensionalidade do processo que ocorre entre os dois pólos, durante a aplicação da Calatonia, a atitude do terapeuta representa um aspecto importante no decorrer do treinamento do método proposto por Pethö Sándor. Para evitar interferências diretivas ou parciais durante a execução dos toques, recomenda-se que se evite a intenção pessoal ou a mobilização através do EGO durante este período. Pethö Sándor sugeria a evocação de um "terceiro ponto", como um SELF projetado, para onde se direcionaria a atenção psíquica do terapeuta e de onde proviria o "comando" da relação.
Justamente por esta multidimensionalidade, a relação bipessoal que se estabelece através da Calatonia é muito rica e pode constituir-se numa experiência peculiar se realizada entre casais, ou mesmo entre amigos ou familiares, surgindo como uma "modalidade" no ato de relacionar-se, evidentemente que após o treinamento e preparo devidos. Neste caso, esta possibilidade apresenta-se também como uma alternativa ao psicoterapeuta, nos enfoques de terapias familiares ou de casais ou ainda nos locais onde os toques não são bem aceitos como procedimento na relação terapeuta paciente.